No Salão do Grand Café, na Boulevard des Capucines, cidade de Paris, trinta curiosos reuniam-se para apreciar o novo invento dos irmãos Lumière. Ao contrário que você possa imaginar, o acontecimento não foi apoteótico. Era uma cerimônia simples: uma tela, algumas cadeiras, um projetor e na entrada, uma faixa escrito “Cinematógrafo Lumière, entrada um franco”. Era dezembro de 1895, data da primeira exibição cinematográfica.
L'Arrivée d'un train à La Ciotat foi um dos dez primeiros filmes que foram exibidos publicamente pelos irmãos Lumière. O plano perspectiva em diagonal mostra a estação de La Ciotat e alguns passageiros. Pode ser visto um carregador avançar em direção à câmera. O comboio de Marselha aparece ao fundo, enquanto os passageiros descem de uma carruagem, entre os quais há uma senhora com uma capa. Os próximos passageiros preparam-se para partir e vê-se um homem transportando um barril.
Fato curioso (e de questionável veracidade) ocorreu durante a exibição do filme. Tal exibição havia causado alvoroço nos espectadores, que temiam que o trem fosse sair da tela.
Após o pontapé dado pelos irmãos Lumière, as produções passariam por um longo processo de atualização e expansão. Seriam reproduzidos quadros históricos, filmes cômicos, dramas, romances, histórias fantásticas, reconstituições religiosas e é claro, temas picantes. Não durou muito até que as primeiras censuras surgissem.
'O Beijo' (1896), filme experimental de Thomas Edison, se tornaria notório por ser o primeiro filme a ser criticado por exigências escandalosas, resultando na sua censura. A sociedade da época não aceitava que a privacidade de um casal fosse exibida daquela forma, mesmo que se tratasse apenas um beijo. Seguia-se um moral, que não só restringia conotação sexual ou criminal e que possuía uma rigorosa conduta pública.
A CENSURA NOS PRIMÓRDIOS DA HISTÓRIA DO CINEMA
O cinema lutou (e luta até hoje) contra todas as ameaças de censura ou outras formas de restrição legal. Durante o seu primeiro mês de existência, o senador James A. Bradley condenava a exposição dos tornozelos da dançarina espanhola Carmencita em um dos cinetoscópios de Edison. Já em 1897, um juiz decidiu que a ‘representação da noite de núpcias era um ultraje à decência pública’.
O prefeito McClellan, de Nova York, além de fechar todos os nickelodeons (predecessor das salas de cinema atuais) da cidade, instaurou a National Board of Censorship, com o objetivo de formar um comitê de cidadãos que examinassem os filmes antes de sua exibição. Este comitê foi formado em cooperação com a recém-criada Motion Picture Patents Company e se intitulou National Board of Censorship of Motion Pictures.
O órgão não agia como uma censura, mais como banca examinadora da produção e fazia sugestões para possíveis mudanças. Para essa avaliação, era cobrado uma taxa de cada produtor.
Considerado o pai dos efeitos especiais, o ilusionista George Méliès (que estava presente na exibição dos irmãos Lumière), revolucionária a narração cinematográfica. Le Voyage dans la Lune (1902), usou técnicas de dupla exposição do filme para obter efeitos especiais inovadores. Méliès influenciou diversos cineastas da época, que buscavam sempre inovações em suas produções. E junto com as inovações, temas ousados (e polêmicos) viriam à tona.
Buscando retratar a Guerra Civil Americana e a ascensão da Ku Klux Clan, D. W. Griffith dirigiu o primeiro épico americano, rodeado de controvérsias. ‘O Nascimento de uma Nação’ (1915) é uma adaptação da peça teatral The Clansman (1905), do reverendo Thomas Dixon Jr.
Ele explora com detalhes os problemas causados com a igualdade de direitos dos negros e celebra a bravura da sociedade secreta que ‘salvou os estados do Sul’ da anarquia. O teor racista piora durante a segunda parte do filme, quando os membros da Ku Klux Klan são apresentados como heróis.
É notável que este filme ajudou o cinema a se transformar em arte, devido três fatores principais:
As críticas e protestos, principalmente da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), forçaram o diretor a produzir o ainda mais ambicioso Intolerance (1916). O cineasta foi pioneiro com o uso de closes, travellings e flashbacks, para contar a história.
Na década de 1920, as companhias cinematográficas de maior influência formaram a Motion Pictures Association of America (MPAA), com o intuito mais urgente de elaborar o Código de Produção, sobretudo para proteger a indústria cinematográfica das questões políticas e morais.
Por fim, o código serviu como autocensura dos grandes estúdios, frente às suas próprias produções. A partir daí, os diretores tiveram que se adaptar, por conta das opiniões públicas ou governamentais, de modo que os valores fossem consolidados. Além das escolhas do diretor, roteiristas, os filmes passam a sofrer com a manipulação do Estado e dos interesses comerciais.
Considerado o pai dos efeitos especiais, o ilusionista George Méliès (que estava presente na exibição dos irmãos Lumière), revolucionária a narração cinematográfica. Le Voyage dans la Lune (1902), usou técnicas de dupla exposição do filme para obter efeitos especiais inovadores. Méliès influenciou diversos cineastas da época, que buscavam sempre inovações em suas produções. E junto com as inovações, temas ousados (e polêmicos) viriam à tona.
Buscando retratar a Guerra Civil Americana e a ascensão da Ku Klux Clan, D. W. Griffith dirigiu o primeiro épico americano, rodeado de controvérsias. ‘O Nascimento de uma Nação’ (1915) é uma adaptação da peça teatral The Clansman (1905), do reverendo Thomas Dixon Jr.
Ele explora com detalhes os problemas causados com a igualdade de direitos dos negros e celebra a bravura da sociedade secreta que ‘salvou os estados do Sul’ da anarquia. O teor racista piora durante a segunda parte do filme, quando os membros da Ku Klux Klan são apresentados como heróis.
É notável que este filme ajudou o cinema a se transformar em arte, devido três fatores principais:
- Produção de um espetáculo com mais de três horas de duração (característica do teatro e da ópera);
- Adaptação de um texto complexo para a linguagem cinematográfica;
- Relação narrativa-espectador entrelaçada com partes da história;
As críticas e protestos, principalmente da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), forçaram o diretor a produzir o ainda mais ambicioso Intolerance (1916). O cineasta foi pioneiro com o uso de closes, travellings e flashbacks, para contar a história.
Na década de 1920, as companhias cinematográficas de maior influência formaram a Motion Pictures Association of America (MPAA), com o intuito mais urgente de elaborar o Código de Produção, sobretudo para proteger a indústria cinematográfica das questões políticas e morais.
Por fim, o código serviu como autocensura dos grandes estúdios, frente às suas próprias produções. A partir daí, os diretores tiveram que se adaptar, por conta das opiniões públicas ou governamentais, de modo que os valores fossem consolidados. Além das escolhas do diretor, roteiristas, os filmes passam a sofrer com a manipulação do Estado e dos interesses comerciais.
O CINEMA SURREALISTA DE BUÑUEL
O movimento de vanguarda do Surrealismo alcançou seu apogeu no início dos anos 30. Tem como base a crença de uma realidade superior, que é adquirida associada ao onírico, enigmático. O cinema surrealista trava uma batalha contra o conservadorismo dos signos.A forma como as produções são classificadas hoje, oriundas de um só movimento de vanguarda, é errônea. Surrealismo e o Dadaísmo, por exemplo, tem o intuito de tornar a realidade, estranha. Porém, a discrepância surge na maneira de expressão.
A Chien Andalou (1928), de Luís Buñuel, reúne imagens para chocar e apresenta diferentes graus de intensidade, em particular por não seguir uma estrutura cinematográfica padrão. Cito aqui o notório (e nauseante) close-up de uma navalha cortando um olho!
A influência do movimento surrealista no cinema partiu das artes plásticas. ‘A Rendeira’ (1669-1670), de Vermeer e ‘O Angelus’ (1857-1859), de Millet, estão presentes no filme. Quando a mulher joga o livro no chão, vemos o quadro de Vermeer em uma das páginas. Na interrupção da cena em que o casal anda na praia, vemos a obra de Millet.
Em L'âge d'or (1930), o diretor define que ‘o instinto sexual e a sensação da morte dão a substância ao filme, encenado em um perfeito e romântico frenesi surrealista’. O filme é impulsionado pelo movimento l’amour fou e nega (de certa forma) os preceitos do movimento, já que a história se desenrola episodicamente. Como era previsto, o filme gerou polêmica entre os surrealistas. Foram organizadas passeatas (pelas organizações de direita), que resultaram em danos ao cinema, proibição policial de exibições futuras, além de uma violenta controvérsia crítica e política.
Porém, o filme deixou seu legado: Os bispos mumificados; o pintor Max Ernst como um bandido frágil e moribundo; a vaca na cama de uma elegante vila burguesa; Lya Lys chupando o dedão do pé de uma estátua. Ambos são filmes atemporais, que manterão o poder de chocar e provocar no século XXI e além.
Os cineastas russos desempenharam um papel importante para a linguagem cinematográfica, antes mesmo da indústria cinematográfica hollywoodiana colocar em evidência a propagação do american way of life.
Isso é visto no fato de Lenin, após ascensão ao poder, usou a sétima arte como uma poderosa arma para defender os ideais socialistas. Deste período, destacam-se: Dziga Vertov, Eleksander Dovzhenko, Lev Kulechov e Pudovkin.
Dos cineastas russos, o que alcançou maior projeção foi Sergei Eisenstein (1898 – 1948). A repercussão de filmes como 'A Greve' (1924), 'Encouraçado Potemkin' (1925), 'Outubro' (1928) e Alexander Nevsky (1938) ultrapassou os limites da fronteira da União Soviética e serviu como influência para diretores como Glauber Rocha e Gillo Pontecorvo.
Os filmes não evitaram a censura ou proibição em alguns países. Na Alemanha nazista e na Itália fascista, a exibição dos filmes foi proibida sob acusação de apologia do comunismo. A priori, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) usou essa justificativa, visando o veto da exibição dos filmes nos cinemas brasileiros.
Embora censurados, os filmes foram assistidos pelos encarregados da propaganda alemã. O ministro alemão, em diário oficial, declarou que o ‘Encouraçado Potemkin’ (1925), ‘foi o melhor filme até então realizado pelo cinema mundial. O filme não é historicamente preciso, porém, oferece um painel fidedigno da opressão e ambição artística estrutural e simbólica. Ressalto aqui a histórica sequência da escadaria de Odessa.
O filme virou um triunfo propagandístico e transformou o diretor no embaixador cultural da União Soviética em todo mundo. Para alcançar a densidade dramática necessária, o diretor utilizou técnicas e conceitos estéticos (que se tornariam clássicos):
Após uma pausa de dez anos, Eisenstein voltava à direção de um novo filme, Alexander Nevsky (1938), respeitando a imposição de Stalin: glorificar ‘heróis da unificação nacional russa’. Frente a crescente percepção de ameaça da Alemanha nazista, Eisenstein foi obrigado a fazer um épico histórico baseado nos acontecimentos do século XIII, quando os russos, liderados pelo príncipe Alexander Nevsky, repeliram uma invasão de cavaleiros germânicos.
Foi o primeiro filme sonoro do diretor. Um exemplo de criatividade visual é observada na cena da Batalha no gelo, com tomadas extremamente estilizadas. No entanto, o filme sofreu censura por meio do governo. Eisenstein, agindo nos limites dos censores, modificou a história para que o triunfo final fosse do coletivismo sobre a figura individual do líder.
Com o filme, o diretor alcançou o sucesso de público e crítica, sendo elogiado posteriormente pelo próprio Stalin. Seu último trabalho foram as duas partes de 'Ivã, o Terrível' (1945 – 1958).
Neste o diretor se reinventou, incorporou tradições estéticas e combinou a epopeia nacionalista e a tragédia shakespeariana, numa estrutura hierárquica de planos, se distanciando das produções dos anos 20.
Concebido originalmente para ser uma trilogia, o épico narra a vida do czar e seu plano de derrotar os boiardos. O filme se concentra na restauração do poder de Ivan e mostra sua aprovação pelos camponeses. A segunda parte do filme narra as maquinações dos boiardos na sua tentativa de assassinar Ivan e revela a progressiva crueldade do czar, que cria sua própria polícia para manter o país sob controle.
A primeira parte foi lançada em 1945, ao passo que, a segunda foi censurada pelo governo, já que Stalin percebeu a crítica que o filme fazia ao seu próprio despotismo. A segunda parte só foi lançada em 1958, quando Eisenstein e Stalin já não estavam mais vivos.
O cinema soviético contribuiu para mostrar aos contemporâneos da Revolução que o cinema não era apenas uma simples forma de entretenimento. Era também, um poderoso meio de comunicação, capaz de transmitir as ideologias e os valores às massas e, desta forma, levar o seu espectador a construir, pensar e a questionar a realidade. Em outro momento histórico, esta mesma 'arma' seria utilizada na Alemanha nazista, por outro idealizador.
Porém, o filme deixou seu legado: Os bispos mumificados; o pintor Max Ernst como um bandido frágil e moribundo; a vaca na cama de uma elegante vila burguesa; Lya Lys chupando o dedão do pé de uma estátua. Ambos são filmes atemporais, que manterão o poder de chocar e provocar no século XXI e além.
EISENSTEIN: CINEMA, POLÍTICA E PROPAGANDA
Os cineastas russos desempenharam um papel importante para a linguagem cinematográfica, antes mesmo da indústria cinematográfica hollywoodiana colocar em evidência a propagação do american way of life.
Isso é visto no fato de Lenin, após ascensão ao poder, usou a sétima arte como uma poderosa arma para defender os ideais socialistas. Deste período, destacam-se: Dziga Vertov, Eleksander Dovzhenko, Lev Kulechov e Pudovkin.Dos cineastas russos, o que alcançou maior projeção foi Sergei Eisenstein (1898 – 1948). A repercussão de filmes como 'A Greve' (1924), 'Encouraçado Potemkin' (1925), 'Outubro' (1928) e Alexander Nevsky (1938) ultrapassou os limites da fronteira da União Soviética e serviu como influência para diretores como Glauber Rocha e Gillo Pontecorvo.
Os filmes não evitaram a censura ou proibição em alguns países. Na Alemanha nazista e na Itália fascista, a exibição dos filmes foi proibida sob acusação de apologia do comunismo. A priori, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) usou essa justificativa, visando o veto da exibição dos filmes nos cinemas brasileiros.
Embora censurados, os filmes foram assistidos pelos encarregados da propaganda alemã. O ministro alemão, em diário oficial, declarou que o ‘Encouraçado Potemkin’ (1925), ‘foi o melhor filme até então realizado pelo cinema mundial. O filme não é historicamente preciso, porém, oferece um painel fidedigno da opressão e ambição artística estrutural e simbólica. Ressalto aqui a histórica sequência da escadaria de Odessa.
O filme virou um triunfo propagandístico e transformou o diretor no embaixador cultural da União Soviética em todo mundo. Para alcançar a densidade dramática necessária, o diretor utilizou técnicas e conceitos estéticos (que se tornariam clássicos):
- Paralelismo espacial e temporal;
- Sequências em close up;
- Simetria e assimetria;
- Montagem visando o tempo narrativo e o tempo dramático;
Após uma pausa de dez anos, Eisenstein voltava à direção de um novo filme, Alexander Nevsky (1938), respeitando a imposição de Stalin: glorificar ‘heróis da unificação nacional russa’. Frente a crescente percepção de ameaça da Alemanha nazista, Eisenstein foi obrigado a fazer um épico histórico baseado nos acontecimentos do século XIII, quando os russos, liderados pelo príncipe Alexander Nevsky, repeliram uma invasão de cavaleiros germânicos.
Foi o primeiro filme sonoro do diretor. Um exemplo de criatividade visual é observada na cena da Batalha no gelo, com tomadas extremamente estilizadas. No entanto, o filme sofreu censura por meio do governo. Eisenstein, agindo nos limites dos censores, modificou a história para que o triunfo final fosse do coletivismo sobre a figura individual do líder.
Com o filme, o diretor alcançou o sucesso de público e crítica, sendo elogiado posteriormente pelo próprio Stalin. Seu último trabalho foram as duas partes de 'Ivã, o Terrível' (1945 – 1958).
Neste o diretor se reinventou, incorporou tradições estéticas e combinou a epopeia nacionalista e a tragédia shakespeariana, numa estrutura hierárquica de planos, se distanciando das produções dos anos 20.
Concebido originalmente para ser uma trilogia, o épico narra a vida do czar e seu plano de derrotar os boiardos. O filme se concentra na restauração do poder de Ivan e mostra sua aprovação pelos camponeses. A segunda parte do filme narra as maquinações dos boiardos na sua tentativa de assassinar Ivan e revela a progressiva crueldade do czar, que cria sua própria polícia para manter o país sob controle.
A primeira parte foi lançada em 1945, ao passo que, a segunda foi censurada pelo governo, já que Stalin percebeu a crítica que o filme fazia ao seu próprio despotismo. A segunda parte só foi lançada em 1958, quando Eisenstein e Stalin já não estavam mais vivos.
O cinema soviético contribuiu para mostrar aos contemporâneos da Revolução que o cinema não era apenas uma simples forma de entretenimento. Era também, um poderoso meio de comunicação, capaz de transmitir as ideologias e os valores às massas e, desta forma, levar o seu espectador a construir, pensar e a questionar a realidade. Em outro momento histórico, esta mesma 'arma' seria utilizada na Alemanha nazista, por outro idealizador.
PARTE II - EM BREVE









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